Em um subúrbio arborizado a meia hora de Manhattan é o último lugar que qualquer um exceto Björk chamaria de casa. Uma das mais excêntricas estrelas do mundo pop é uma residente improvável da comunidade onde uma grande bandeira anuncia o festival do morando da igreja Presbiteriana local e onde as esposas de banqueiros podem caminhar com seus bebês ao redor do terreno montanhoso.
E ainda há mais surpresas, como a casa de pedras de 1920 que ela compartilha com o artista Matthew Barney e a filha de 21 meses, Isadora. Uma velha bicicleta de escola com um assento de bebê está encostada na entrada da casa. O quintal espaçoso possui uma piscina de bebê enorme feita de borracha, um exuberante arbusto rosa, um pavilhão e um alimentador de beija-flor. Não há um cisne à vista, só o barulho de um pavão, que é visita freqüente.
Na mesa da cozinha, há uma edição de domingo do New York Times, e Isadora mastiga um ovo em sua cadeira alta, assistida por sua babá islandesa. Há também um jogo de plataformas giratórias próximas ao fogão e uma fotografia da genitália masculina na parede da cozinha (paralelamente com dois pares de sapatinhos de bebê). Esse é o retrato da vida domestica.
Até que Björk aparece, em sua recente seção de fotos para promover seu novo álbum. A cantora está usando um vestido
arco-íris e sapatos pretos de duende. Um pequeno exército de amigos islandeses, que fazem seus cabelos e maquiagem,
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se aglomeram em volta com uma máquina fotográfica, enquanto estão documentando seu penteado arquitetônico para uma referência futura e falando intensamente em islandês.
Björk deixa a máquina de cappuccino, e nos conduz a uma escadaria sinuosa, passado por seu estúdio de gravação, para a sua sala de estar. Embora Barney não tenha sido visto em parte alguma, sua personalidade está refletida na decoração do quarto: paredes pintadas de rosa, um gigantesco lustre rosa e branco, um jogo de mesa de jantar com dois candelabros esculpidos e um par de pinturas de corujas brancas em cima da lareira. Após se queimar, Björk nervosamente murmura como pássaros engaiolados.
Então, a superstar islandesa que usou o infame vestido de cisne no Oscar e passou o verão de 2001 morando em um iglu de alumínio na Groelândia, abandonou seus modos excêntricos pela felicidade suburbana?
"Eu acordei numa manhã e tive esta mania", diz Björk que estava vivendo na ocasião no Distrito de Meatpacking de Manhattan. "Eu fiquei obcecada durante duas semanas. Precisava achar um lugar próximo a natureza ou então morreria – assim, eu achei este lugar em poucos dias. Depois eu descobri que estava grávida, e pensei, Okay, essa era a razão".
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Famosa por sua tímidez, Björk é extremamente pensativa em uma entrevista, ponderando cada pergunta e dando muito tempo entre as respostas. Aos 38 anos, ela está no negócio da música há 27, depois de ter lançado sua primeira gravação aos 11 anos. Na sua adolescência, ela formou uma série de bandas punk, inclusive o Sugarcubes internacionalmente bem sucedido, que tinha entre os componentes seu ex-marido, Thor Jonson, com quem ela tem um filho de 18 anos, Sindri. O sexto álbum solo dela, Medulla, verá a luz no fim do verão, e retifica seu estilo, focado agora no experimental. O álbum é estritamente a capela.
Drew Daniel, de São Francisco e integrante do duo eletrônico Matmos, que trabalha com Björk já há 3 anos diz que ela chegou nessa decisão de usar somente vozes apenas no fim do processo de gravação. "Eu me lembro dela cantando com a seção de Justin Timberlake "Rock Your Body" que era feito somente com barulhos de bocas". Junto com seu sócio, M.C. Schmidt, Daniel e Björk tentaram "beatboxing", ou cantar os instrumentais em uma das composições dela. "Nós só poderíamos dizer que foi mais íntimo do que ela desejava", diz Daniel. "Com Björk, a emoção é a chave. Ela sacrificará uma grande orquestra se achar que está entupindo a mixagem. Esta gravação é o exemplo disso".
“Eu fiquei muito entediada com os instrumentos,” ela diz, lambendo seus lábios em um grande círculo, um dos seus tics faciais. “Eu comecei a fazer tudo com minha voz. Então de repente eu não quis trabalhar com músicos, o que é meio estranho. Eu só quis trabalhar com vocalistas"
Se inspirou, ela diz, no paganismo e na idéia de retornar ao universo que é completamente humano, sem ferramentas, religião ou nacionalidades. “Eu quis que o álbum fosse como o
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músculo, sangue e carne” ela diz enquanto bombeia seu seu punho. “Poderíamos estar em algum lugar dentro de uma caverna e alguém começaria a cantar, e outra pessoa faria um ritmo e a outra uma melodia. Assim você poderia ficar realmente feliz dentro de sua caverna. É algo elementar”, diz ela com muita ênfase nos ‘Rs' proveniente do sotaque da língua islandesa.
O resultado de Medulla é puramente Björk – sem o Club Vibe. Camadas deslumbrantes dela são completadas por vozes angelicais de convidados, como Rahzel do Roots, o beatbox japonês Dokaka, e a cantora Inuit Tanya Tagaq Gillis, conhecida por suas entonações que parecem ser feitas por mais de uma pessoa. Björk conta sobre sua mudança de Londres para Nova Iorque em 2001 - uma fuga dos implacáveis paparazzis que se escondiam nos abrustos – há também a tendência ao isolamento provocada por seu álbum. Mas o intenso patriotismo dos Estados Unidos pelo 11 de setembro surpreendeu Björk. "Era como se em qualquer lugar onde você estivesse de pé, pudesse se ver pelo menos 27 bandeiras" ela recorda. "Era um pouco assustador você ser de um outro lugar, isso me fez lembrar do tempo Nazista".
Embora Björk não mencione Barney como um fator, é difícil de imaginar que o artista de 37 anos - de quem a exibição em Guggenheim, "The Cremaster Cycle" (uma criação de nove anos do seu próprio universo alternativo) que levou a crítca ao delírio ano passado - não a afetou artisticamente.
Ela insiste que sua influência não seja tão literal quanto gostam de pensar. "Se você está feliz e apaixonado, obviamente isso vai ter um efeito em seu trabalho" |
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ela diz. "Eu acho que nos influenciamos um ao outro provavelmente em um nível muito humano, do modo como qualquer homem afetaria qualquer mulher. Não do tipo, "Oh, agora entrarei num período rosa, pois estou passando por um período rosa". Ela diz, gesticulando em direção às paredes rosas ao seu redor. "Nada artificial ou literal como isso. É mais nutrição, eu fazendo meu trabalho e sendo nutrida."
Então Björk pede para que não sejam feitas mais quaisquer perguntas sobre Barney. "Eu não quero ser parcimoniosa, nós somos bastante egoístas sobre nossa relação".
Um assunto que ela tocou, foi sobre atuar - e sua determinação de nunca mais fazer isso, após sua brutal participação em Dançando no Escuro. “Havia muita crueldade, não só comigo, mas dentro daquele grupo, um com o outro" ela diz. "Realmente sórdido e cheio de golpes pelas costas". Ela também falou sobre as Olimpíadas em Atenas na qual foi convidada a cantar na cerimônia de abertura. "Eu estou tentando escrever uma canção onde não se diga ‘We Are the World,' ou ‘Ebony and Ivory '" ela diz rindo.
Claro que, a canção composta por Björk poderia não fazer sucesso comercial. Ela nunca é um grande hit nas Estações, mas está perfeitamente contente por conseguir manter seu trabalho. "Eu nunca precisei agradar alguém ou lamber uma pessoa ignorante ou qualquer coisa," Ela diz, acrescentando que já está acostumada a ser sempre mal entendida. “Há muitas pessoas que não escutam minhas músicas, mas há também muitas que o fazem. Então, eu não me sinto no direito de pedir mais".
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REVISTA W MAGAZINE
AGOSTO DE 2004
REPORTAGEM: ALISON BURWELL
FOTO 01: LISE SARFAT
TRANSCRIÇÃO: KARVEL DE SO BJÖRK
TRADUÇÃO: RAFAEL NOBRE
FOTOS: SUGARCUBE
DESIGN: RAFAEL NOBRE
BJÖRK BRASIL
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